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Sétimo e oitavo dias (Natal) – 24 e 25/12

Véspera de Natal em Long Island
Depois do mais longo dos dias até então, aproveitei a hospedagem amigavelmente brasileira e a cama quente para esticar um pouco mais o sono, porque o dia também prometia. Não porque iríamos andar enlouquecidamente por museus em Manhattan, mas porque conseguir uma hospedagem de graça nos USA no dia de Natal e ficar belo e faceiro coçando pela casa, só esperando para encher o bucho de comida na ceia à noite, não é do meu feitio. Ajudar também faz parte do contrato social.

Vale aqui contar um pouco da história dos nossos anfitriões. Z. é prima de segundo grau da P. Casou-se com F. no Brasil, tiveram três filhos e foram com eles ainda pequenos ganhar a vida nos USA há cerca de 20 anos. F. conseguiu emprego como taxista e algum tempo depois começou a trabalhar numa empresa de fretamentos de luxo. Z. seguiu o marido e também foi trabalhar transportando gente endinheirada por Manhattan. Só para se ter uma idéia, Z. nos buscou em Manhattan num Lincoln preto.

Eu, num Lincoln preto em Manhattan. Para o The Plaza, please.

Eu, num Lincoln preto em Manhattan. Para o The Plaza, please.

Z. e F. criaram os filhos e colocaram-nos na faculdade com esse trabalho e gordas gorjetas. Juntos conquistaram o sonho da casa própria em Long Island, que fica a cerca de 40 min de Manhattan, e lá vivem desde então. “Casa própria”, no caso, não é aquele apartamento de 100 metros quadrados com o qual a classe média sonha em um dia ter aqui em São Paulo. Estou falando de CASA própria, num subúrbio americano, sem muros separando uma casa da outra, e com um quintal grande o suficiente para abrigar um runabout com muita folga. Quatro quartos, uma cozinha super bem montada, e um porão muito bem arrumado, no qual o filho mais velho mora.

Pense no que a classe média brasileira conquistou até hoje e compare com o padrão de vida alcançado por essa família. Esse absimo entre a classe média americana e a brasileira é tão notável quanto o tamanho do copo de coca-cola do Dallas BBQ. Eles próprios consideram que a prosperidade financeira é conquistada (por alguns) com uma velocidade muito grande na América. Eu acrescento que a crise econômica de 2008 provou que a bancarrota é alcançada em tempo ainda menor.

Passamos o dia ajudando a Z. com os preparativos para a ceia de Natal na cozinha. Assim como a maioria das famílias, não há empregada ou faxineira para ajudá-la na casa (itens de luxo por lá, levando-se em conta o preço cobrado por ambas), então é preciso se virar.

O bufê pós-ceia.

O bufê pós-ceia.

A geladeira preta.

A geladeira preta.

Mais um pedaço da cozinha.

Mais um pedaço da cozinha.

Reparem na caixa de latas no canto inferior direito da última foto. Aprendi no Natal que não é preciso colocar os refrigerantes na geladeira, o chão se encarrega de gelar tudo muito bem.

Os convidados para o Natal foram os de todos os outros Natais, ou seja, os sobrinhos do F. e suas respectivas famílias, que seguiram o caminho do tio e hoje levam a vida nos USA. Todos já estão lá há tempo suficiente para não mais pensar em voltar a viver no Brasil. Os filhos já têm a educação encaminhada em alguma high school, outros já entraram na faculdade, o emprego é bom, a qualidade de vida também. A saudade da família que ficou no Brasil se mata com uma viagem de férias. Os filhos são bilingües, é possível conversar com eles em português, mas os primos, entre uma partida e outra de PlayStation 3, conversam entre si em inglês. A mistura é engraçada, eu me diverti ouvindo e conversando com eles.

Árvore, lareira, presentes e crianças. Faltou Papai Noel.

Árvore, lareira, presentes e crianças. Faltou Papai Noel.

É Natal, também ganhei presente.

É Natal, também ganhei presente.

P. e nossa anfitriã

P. e nossa anfitriã

Familia brasileira. Igual em todo lugar. E o rabo do gato.

Família brasileira. Igual em todo lugar.

Natal em Orangeburg
Acordamos cedo no dia 25 e pegamos o trem em Long Island para Orangeburg, pois ficamos de almoçar com a host family da P. Dia bonito, céu aberto. O frio é implícito.

Já havia mencionado a qualidade do metrô de NY, esqueci de falar que os trens intermunicipais também são excelentes. Ao contrário do metrô, as estações são tão limpas e bem conservadas quanto os vagões. Estação, aliás, que muitas vezes se resume a uma pequena plataforma acessível da rua sem qualquer barreira, cerca ou algo que o valha, já que a venda de tickets é feita via vending machines.

Reparem no assento. Igualzinho ao trem pra Zona Leste de São Paulo.

Reparem no assento. Igualzinho ao trem pra Zona Leste de São Paulo.

Fotos da Secaucus Junction:

Estação quase vazia. Ninguém viaja no dia de Natal?

Estação quase vazia. Ninguém viaja no dia de Natal?

Catracas de acrilico.

Catracas de acrílico.

Chegamos em Orangeburg em cerca de 1h30, bem na hora do almoço, que não tinha as sobras da ceia, já que ela não havia acontecido ali na noite anterior. Comida simples mas bem preparada – nada como um almoço de Natal diferente pra variar. À mesa tive a constatação de que os americanos comem rápido e muito pouco. Ou eu que sou lerdo e como demais. Se não fosse o papo com os avós das crianças, teria ficado sozinho por muito tempo.

Crianças, presentes, árvore. Papai Noel já tinha passado.

Crianças, presentes, árvore. Faltou Papai Noel de novo.

Foi a primeira vez que pude entrar em contato por mais tempo com a família que conviveu com a P. durante um ano. Pertencem à classe média também, mas um tico mais alta. R., a mãe, é médica, e os dois filhos, D. e J., têm, respectivamente, 5 e 7 anos. Contratar uma au pair é uma opção viável para poucas famílias nos USA, e, como pude constatar, a mão-de-obra vem de todos os lugares: Alemanha, México, Brasil, Panamá, Rússia. A maioria escolhe ser au pair porque é a opção mais barata para se conseguir estudar inglês, conhecer os USA e ainda ganhar algum dinheiro. Mas não se iludam, meninas, ser au pair nos USA é considerado subemprego (segundo o Aurélio, “situação de pessoas que, embora tenham ocupação remunerada, exercem atividades de baixa produtividade, como, p. ex., vigia de automóveis, ou só têm emprego parte do tempo, como certos trabalhadores rurais”.). E não é à toa. Você cuida da endiabrada prole alheia a troco de quase nada. Além de poderem dirigir, as au pairs só são diferentes das babás brasileiras por não serem obrigadas a se vestirem de branco.

Por algum milagre da natureza, apesar de tudo isso, a P. conseguiu estabelecer uma relação muito boa com a família que ela escolheu. Ficaram todos meio sentidos com a partida dela. Principalmente porque a nova au pair não fala uma vírgula em inglês.

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Mas nada disso importa. O que importa é que a parte mais interessante do Natal foi, com certeza, passar o resto do dia brincando com os presentes de Natal das crianças: Wii Fit, Mario Kart Wii, Nintendo DS. Farra para nerd nenhum botar defeito.


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