Arquivo de janeiro \28\UTC 2009

Nono dia – 26/12

Dia das compras
O combinado para o dia seguinte ao Natal era aproveitarmos a xepa e conseguir, quem sabe, algumas boas ofertas. Acordamos cedo e a R. nos levou até o Palisades Mall, (dado inútil: o décimo-segundo maior shopping dos USA, de acordo com a Wikipedia). No caminho, R. nos explicou que o tal shopping é considerado uma verdadeira aberração da engenharia civil norte-americana, pois foi construído em cima de um pântano. O resultado são as rachaduras que se espalham pelo chão. R. nos alertou para prestar atenção ao térreo, que está coberto por um carpete justamente para esconder algumas das fendas abertas no piso. Reza a lenda que o shopping está, literalmente, afundando, o que não deixa de ser irônico em tempos de crise.

Aproveitamos que o shopping ainda não se consumiu a si próprio e fomos nós às compras. De fato, ele é o maior que já visitei (pelo que vi, perde em área construída para o Aricanduva aqui em Sampa), mas nada tem de especial além do tamanho e de uma roda gigante no meio do parque de diversões. Os preços, frustrando minhas expectativas, não estavam tão convidativos como imaginei. Acabei descobrindo que a xepa do Natal nada tem de parecida com o que acontece na Black Friday, o dia seguinte ao Thanksgiving, em que os americanos vão às compras às 5 da manhã para aproveitar as promoções – nada como um motivo nobre para acordar cedo numa emenda de feriado.

Achei o vídeo abaixo que mostra como foi a Black Friday nesse shopping em 2006.

O Henry também tem uma experiência bem edificante na Black Friday, vale a pena conferir.

Chegamos cedo, evitamos parte da horda consumista que certamente viria mais tarde, e pudemos passear com certa tranquilidade. Infelizmente não cheguei a tempo de ver a Circuit City antes da falência. Também já tinha presenciado a KB Toys fechando a barraquinha dias antes num shopping em New Jersey. Restava-me a Best Buy, para as coisas que realmente interessam, ou seja, bugigangas eletrônicas.

O diabo do consumo

O diabo do consumo

Dica do dia: se você quer comprar eletrônicos nos USA, bater perna continua sendo um bom caminho. Muitas das ofertas da Best Buy ainda não batiam os preços da Amazon, por exemplo. Então é bom fazer uma pesquisa prévia online antes de ir para a loja física. Você pode chegar à conclusão de que, mesmo com o frete, pode valer a pena comprar numa loja virtual e mandar entregar no endereço onde você estiver hospedado durante a viagem.

Almoço no Friday's. Pelo menos a Coca é menor do que no Dallas BBQ. Atenção para o relógio comprado na 25 de março dias antes da viagem e que parou de funcionar no dia dessa foto.

Almoço no Friday's. Pelo menos a Coca é menor do que no Dallas BBQ. Atenção para o relógio comprado na 25 de março dias antes da viagem e que parou de funcionar no dia dessa foto.

Ainda passamos pela Victoria’s Secret (cuja loja é bem menos interessante que o desfile de lingeries da marca), Bed Bath & Beyond, etc., etc. Saímos do shopping e pegamos o ônibus para casa.

A frente da casa, até então sem foto. No canto direito, P. e a mala que ela acabara de comprar num chinês ali perto. Minha namorada ainda ficaria, mas a mala voltaria comigo para o Brasil. E bem cheia. De coisas dela, obviamente.

A frente da casa, até então sem foto. No canto direito, P. e a mala que ela acabara de comprar num chinês ali perto. Minha namorada ainda ficaria em Orageburg por um tempo, mas a mala voltaria comigo para o Brasil. E bem cheia. De coisas dela, obviamente.

Mal chegamos e a P. recebe uma ligação da R., uma das alemãs, convidando-nos para sair à noite. Acho que as au pairs da região sofrem de um problema crônico de falta do que fazer nas horas vagas, porque o lugar escolhido pelas meninas foi justamente o shopping do qual havíamos acabado de sair. Eu teria me contentado sem problema algum com um bate-papo em casa, um cinema, até o Dunkin’ Donuts do primeiro dia estava bom, mas lá fomos nós de novo para o monstro do pântano. Jantamos um sanduba genérico por lá e me preparei para as emoções do meu primeiro passeio solo por Manhattan no dia seguinte.

Para a próxima vez em NY – I

Acompanhar de perto as ações do Improv Everywhere.

De acordo com o site do grupo, não se tratam de meros flash mobs, mas de “missões” que eles se propõem a cumprir. Como entrar em grupo na Best Buy vestido exatamente como os vendedores da loja, ou realizar uma apresentação ao vivo de um U2 mais falso que bolsa da Louis Vitton da 25 de março.

Pena que essa juventude não saiba usar essa capacidade de mobilização para fins mais úteis.

Sétimo e oitavo dias (Natal) – 24 e 25/12

Véspera de Natal em Long Island
Depois do mais longo dos dias até então, aproveitei a hospedagem amigavelmente brasileira e a cama quente para esticar um pouco mais o sono, porque o dia também prometia. Não porque iríamos andar enlouquecidamente por museus em Manhattan, mas porque conseguir uma hospedagem de graça nos USA no dia de Natal e ficar belo e faceiro coçando pela casa, só esperando para encher o bucho de comida na ceia à noite, não é do meu feitio. Ajudar também faz parte do contrato social.

Vale aqui contar um pouco da história dos nossos anfitriões. Z. é prima de segundo grau da P. Casou-se com F. no Brasil, tiveram três filhos e foram com eles ainda pequenos ganhar a vida nos USA há cerca de 20 anos. F. conseguiu emprego como taxista e algum tempo depois começou a trabalhar numa empresa de fretamentos de luxo. Z. seguiu o marido e também foi trabalhar transportando gente endinheirada por Manhattan. Só para se ter uma idéia, Z. nos buscou em Manhattan num Lincoln preto.

Eu, num Lincoln preto em Manhattan. Para o The Plaza, please.

Eu, num Lincoln preto em Manhattan. Para o The Plaza, please.

Z. e F. criaram os filhos e colocaram-nos na faculdade com esse trabalho e gordas gorjetas. Juntos conquistaram o sonho da casa própria em Long Island, que fica a cerca de 40 min de Manhattan, e lá vivem desde então. “Casa própria”, no caso, não é aquele apartamento de 100 metros quadrados com o qual a classe média sonha em um dia ter aqui em São Paulo. Estou falando de CASA própria, num subúrbio americano, sem muros separando uma casa da outra, e com um quintal grande o suficiente para abrigar um runabout com muita folga. Quatro quartos, uma cozinha super bem montada, e um porão muito bem arrumado, no qual o filho mais velho mora.

Pense no que a classe média brasileira conquistou até hoje e compare com o padrão de vida alcançado por essa família. Esse absimo entre a classe média americana e a brasileira é tão notável quanto o tamanho do copo de coca-cola do Dallas BBQ. Eles próprios consideram que a prosperidade financeira é conquistada (por alguns) com uma velocidade muito grande na América. Eu acrescento que a crise econômica de 2008 provou que a bancarrota é alcançada em tempo ainda menor.

Passamos o dia ajudando a Z. com os preparativos para a ceia de Natal na cozinha. Assim como a maioria das famílias, não há empregada ou faxineira para ajudá-la na casa (itens de luxo por lá, levando-se em conta o preço cobrado por ambas), então é preciso se virar.

O bufê pós-ceia.

O bufê pós-ceia.

A geladeira preta.

A geladeira preta.

Mais um pedaço da cozinha.

Mais um pedaço da cozinha.

Reparem na caixa de latas no canto inferior direito da última foto. Aprendi no Natal que não é preciso colocar os refrigerantes na geladeira, o chão se encarrega de gelar tudo muito bem.

Os convidados para o Natal foram os de todos os outros Natais, ou seja, os sobrinhos do F. e suas respectivas famílias, que seguiram o caminho do tio e hoje levam a vida nos USA. Todos já estão lá há tempo suficiente para não mais pensar em voltar a viver no Brasil. Os filhos já têm a educação encaminhada em alguma high school, outros já entraram na faculdade, o emprego é bom, a qualidade de vida também. A saudade da família que ficou no Brasil se mata com uma viagem de férias. Os filhos são bilingües, é possível conversar com eles em português, mas os primos, entre uma partida e outra de PlayStation 3, conversam entre si em inglês. A mistura é engraçada, eu me diverti ouvindo e conversando com eles.

Árvore, lareira, presentes e crianças. Faltou Papai Noel.

Árvore, lareira, presentes e crianças. Faltou Papai Noel.

É Natal, também ganhei presente.

É Natal, também ganhei presente.

P. e nossa anfitriã

P. e nossa anfitriã

Familia brasileira. Igual em todo lugar. E o rabo do gato.

Família brasileira. Igual em todo lugar.

Natal em Orangeburg
Acordamos cedo no dia 25 e pegamos o trem em Long Island para Orangeburg, pois ficamos de almoçar com a host family da P. Dia bonito, céu aberto. O frio é implícito.

Já havia mencionado a qualidade do metrô de NY, esqueci de falar que os trens intermunicipais também são excelentes. Ao contrário do metrô, as estações são tão limpas e bem conservadas quanto os vagões. Estação, aliás, que muitas vezes se resume a uma pequena plataforma acessível da rua sem qualquer barreira, cerca ou algo que o valha, já que a venda de tickets é feita via vending machines.

Reparem no assento. Igualzinho ao trem pra Zona Leste de São Paulo.

Reparem no assento. Igualzinho ao trem pra Zona Leste de São Paulo.

Fotos da Secaucus Junction:

Estação quase vazia. Ninguém viaja no dia de Natal?

Estação quase vazia. Ninguém viaja no dia de Natal?

Catracas de acrilico.

Catracas de acrílico.

Chegamos em Orangeburg em cerca de 1h30, bem na hora do almoço, que não tinha as sobras da ceia, já que ela não havia acontecido ali na noite anterior. Comida simples mas bem preparada – nada como um almoço de Natal diferente pra variar. À mesa tive a constatação de que os americanos comem rápido e muito pouco. Ou eu que sou lerdo e como demais. Se não fosse o papo com os avós das crianças, teria ficado sozinho por muito tempo.

Crianças, presentes, árvore. Papai Noel já tinha passado.

Crianças, presentes, árvore. Faltou Papai Noel de novo.

Foi a primeira vez que pude entrar em contato por mais tempo com a família que conviveu com a P. durante um ano. Pertencem à classe média também, mas um tico mais alta. R., a mãe, é médica, e os dois filhos, D. e J., têm, respectivamente, 5 e 7 anos. Contratar uma au pair é uma opção viável para poucas famílias nos USA, e, como pude constatar, a mão-de-obra vem de todos os lugares: Alemanha, México, Brasil, Panamá, Rússia. A maioria escolhe ser au pair porque é a opção mais barata para se conseguir estudar inglês, conhecer os USA e ainda ganhar algum dinheiro. Mas não se iludam, meninas, ser au pair nos USA é considerado subemprego (segundo o Aurélio, “situação de pessoas que, embora tenham ocupação remunerada, exercem atividades de baixa produtividade, como, p. ex., vigia de automóveis, ou só têm emprego parte do tempo, como certos trabalhadores rurais”.). E não é à toa. Você cuida da endiabrada prole alheia a troco de quase nada. Além de poderem dirigir, as au pairs só são diferentes das babás brasileiras por não serem obrigadas a se vestirem de branco.

Por algum milagre da natureza, apesar de tudo isso, a P. conseguiu estabelecer uma relação muito boa com a família que ela escolheu. Ficaram todos meio sentidos com a partida dela. Principalmente porque a nova au pair não fala uma vírgula em inglês.

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Mas nada disso importa. O que importa é que a parte mais interessante do Natal foi, com certeza, passar o resto do dia brincando com os presentes de Natal das crianças: Wii Fit, Mario Kart Wii, Nintendo DS. Farra para nerd nenhum botar defeito.

Como uma gringa vê o Brasil

Estou há dias aqui contando as minhas peripécias por NY e descrevendo a sociedade americana do ponto de vista de um paulista. Mas que tal saber do Brasil sob o ponto de vista de uma novaiorquina? Por meio do Trabalho Sujo descobri o blog da Rachel, uma americana do condado de Westchester, NY (aliás, quem souber definir para mim town, city, village, borough, county e state ganha um twix) que veio em Junho de 2007 morar no Rio de Janeiro, onde trabalhou em ONGs e dá aulas de balé. Chega, portanto, a ser audácia da minha parte querer comparar a minha experienciazinha de quinze dias em NY com os quase dois anos dela aqui, mas não achei outro exemplo melhor, ficamos com esse mesmo.

No Rio Gringa, Rachel destrincha com precisão cirúrgica as peculiaridades desse país maluco chamado Brasil. Além de bem escritos, seus textos têm uma ironia rara por aí, o que já é um avanço. Nesse post ela destaca 10 coisas com as quais um gringo precisa se acostumar no Brasil se não quiser enlouquecer. Eu destaco duas. A primeira tem a ver com o modo leviano com que o brasileiro tende a usar certas expressões:

7. Meaning what you say. An important part of Brazilian culture is pleasing others, and it’s considered polite to tell people, “Come over to my house!” even if you don’t mean it; ditto for making plans, going out, or extending an invitation. Out of every 10 social invitations you receive, expect 5 or less to be legitimate. Make sure to exchange information, (not just to give your number), and to follow up. A tell-tale sign that an invitation is out of politeness is if one or more major details is missing, like the place or time, since there’s a strong possibility that person will never call to fill you in. Another facet of this concept is that when you ask for directions, people will give them to you regardless of whether they actually know where to send you, so it’s always a good idea to ask three different people for directions.

Já o segundo trecho é o que mais chama atenção, por fazer uma leitura que muito brasileiro não consegue do próprio país:

1. Ambiguity. One of the the things that I find most perplexing, and sometimes frustrating, about Brazilian society is how so much of it is completely ambiguous. Since Brazil is a great big mixture of people from different countries and cultures, where the mulatta and feijoada are revered, and where rice can never be eaten alone, a great deal of Brazilian culture is a grey area, unlike the black and white American society. One of Brazil’s most popular blogs illustrates this idea perfectly: Sedentario e Hiperativo (Sedentary and Hyperactive). Sometimes this may seem completely contradictory and mind-boggling. How can something be two completely different things at once? How could such a wealthy country have so much poverty? How could so much misery exist side by side with so much happiness? How could so much corruption happen in a place with so many honest people? How could so much violence plague a country know for diplomacy and conflict resolution? How could so much crime exist in a place where so many people respect their fellow countrymen? All of these are tricky questions, ones that leave you cross-eyed and a little insane. It takes a lot of getting used to.

I’m sorry, Rachel. Há uma explicação para essa ambiguidade toda que te deixa maluca, mas para entendê-la é preciso voltar à formação do país, que misturava liberalismo burguês com escravidão. Nascemos dentro do capitalismo, produzindo para o mercado externo, mas por 4 séculos a mão de obra que a produzia era escrava, ou seja, nenhuma mercadoria era consumida pela força de trabalho que a produzia. Luta de classes, então, nem pensar. Enquanto seu país conquistou sua liberdade em meio a uma guerra civil, com luta armada, nossa “liberdade” foi “conquistada” por um decreto. Somos “livres”, desde o princípio, por mero expediente burocrático. É meio difícil de explicar como tudo isso resultou nas ambiguidades que você enxerga hoje, mas ler Machado de Assis já ajuda bastante.

Em tempo: guardarei a imagem de que parte da cultura brasileira é uma grande gray area, enquanto os EUA são black and white. Acho que isso ainda pode ser útil para a minha dissertação.

E esse avião que caiu no Rio Hudson?

Chris Gay/NYTimes

Crédito: Chris Gay/NYTimes

O Hudson é o mesmo rio que o Ferry que pegamos no quarto dia atravessa para chegar em New Jersey. Podem até terem saídos vivos dessa, mas as 155 pessoas sãs e salvas desse acidente morreram de frio assim que puseram os pés fora do avião.

Sexto dia – 23/12

Brooklyn Bridge, Dallas BBQ, Grand Central, 53rd&3rd, Rockefeller Center. Ou o mais longo dos dias.
O sexto dia dessa viagem vai ser lembrado para sempre como The Longest Day. O plano inicial era fazer o passeio durante o dia e pegar uma carona com a Z., prima da P., à noite, pois dormiríamos na casa dela em Long Island para passarmos o Natal com a família dela. Arrumamos nossas mochilas e rumamos para Manhattan.

Por algum milagre da natureza, o céu se abriu e o sol apareceu. Ele, que não tinha dado as caras desde que cheguei em NY, resolveu aparecer e nos ajudou a programar um pouco melhor o dia, já que os três primeiros passei enfurnado em museus por causa do frio, da neve ou da chuva. Neste dia não choveu, mas tanto a neve como o frio ainda estavam lá, firmes e fortes.

Brooklyn Bridge
Resolvemos começar o dia em Downtown, mais precisamente na Brooklyn Bridge.

Não dá pra ver, mas a ponte é de madeira

Não dá pra ver, mas a ponte é de madeira

Reza a lenda que atravessar a ponte a pé e emendar um tour pelo Brooklyn é um ótimo passeio. Não duvido nem um pouco, pois de fato a ponte é belíssima, bem conservada (para uma ponte fundada em 1883) e a visão que se tem de Manhattan do outro lado do rio deve ser ótima, mas nos contentamos em chegar até a primeira das torres, o que já foi uma aventura incrível, dado o estado do chão e do meu tênis, mais careca que bunda de índio.

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Aproveitando, fica aqui mais uma dica para os marinheiros de primeira viagem na neve: vale a pena investir num bom tênis de trilha e em meias grossas se você quer de fato enfiar o pé na neve sem precisar se preocupar muito com o frio. Eu fui com meu Timberland velho de guerra e algumas meias grossas e não passei aperto. O lance é evitar tênis de corrida, com revestimento em lona, que é leve, mas se molha muito fácil. E andar com a meia molhada na neve não é exatamente a experiência mais agradável do mundo.

Grand Central Station e Dallas BBQ
Saímos da ponte, passamos na Modell’s da Chambers Street (bons preços na época, vale a visita) e pegamos o metrô para a 42nd Street. O objetivo era ir direto ao restaurante, mas já que saímos direto na Grand Central Terminal (e não Station, como eu havia aprendido), por que não aproveitar para tirar umas fotos?

Dá pra ver o relógio onde o Melman do Madagascar enfiou a cabeça?

Dá pra ver o relógio onde o Melman do Madagascar enfiou a cabeça?

A Grand Central, segundo a Wikipedia, é a maior estação de trens do mundo em número de plataformas. Novamente, não duvido. Pela foto dá pra notar a quantidade de gente circulando pelo saguão, vindos de todos os lugares. É somente doze anos mais velha do que a Brooklyn Bridge, o que me faz pensar agora que nesse dia ainda não havia saído do século XIX nos meus passeios. Assim como a ponte, a estação é muito bonita e muito bem conservada, mesmo sendo utilizada diariamente por milhares de pessoas.

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Já devidamente famintos, finalmente fomos conhecer o Dallas BBQ da Times Square, bem perto da Grand Central.

Também fui ao restaurante seguindo uma dica do Nova York para Mãos-de-Vaca (aliás, ótima fonte de referências para pobres que se metem a passear por NY como eu). De fato, trata-se de uma das opções mais baratas de Manhattan. No entanto, como bem avisa o Henry, as porções são grandes. Por isso, pedimos somente um Bar-B-Q Baby Back Ribs com yellow rice, que foi mais do que o suficiente para nós dois. Lembramos do detalhe do tamanho para o prato, mas esquecemos disso na hora de pedir os refrigerantes.

E então, você pede pro garçom uma inocente coca-cola e eles te dão isso:

Um balde, praticamente.

Reparem que há na mão da P. um pedaço de papel rasgado da lâmina do Dallas BBQ. Trata-se disso aqui:

Duas refeições por 10 doletas? É isso mesmo?

Duas refeições por 10 doletas? É isso mesmo?

Fomos obrigados a voltar outro dia para provar o Early Bird Special.

Posso dizer que comer no Dallas BBQ é conhecer um pouco dos EUA. Está tudo lá: o consumo, o exagero, a comida meio picante e ao mesmo tempo sem gosto. Há até uma divisão social do trabalho muito bem definida entre negros e latinos (as duas mãos-de-obra mais abundantes em Manhattan, por sinal). Os negros são os atendentes de primeira linha: vestem calça preta e camisa azul, anotam seu pedido, são atenciosos, perguntam se a comida está a contento e trazem a conta. Os latinos, por sua vez, não abrem a boca. Vestem-se de preto (aparentemente, quanto mais invisíveis, melhor) e fazem o trabalho sujo: limpam as mesas e os banheiros. Não entrei na cozinha, mas imagino que devam ser eles quem lavam os pratos e limpam o chão. Não há brancos trabalhando como garçons. Os únicos que eu vi no restaurante ou eram supervisores/gerentes ou eram clientes.

53rd&3rd, Quinta Avenida, Apple Store, Time Warner Center, Whole Foods
Depois dessa experiência sociológica e devidamente empanturrados com tanta comida e refrigerante, subimos a pé até o cruzamento da 53rd Street com a 3rd Ave e cumpri a primeira parte do meu roteiro Ramonico (que ainda incluía a Joey Ramone Place e o CBGB).

A parte do "standing on the street" teve que ficar de lado, muita gente e muito carro.
Para os incautos que não sabem do que estou falando.

Fomos até a 5th Avenue e continuamos subindo, até que chegamos à caixa mágica da Apple (coro angelical, por favor):

Reparem na escuridão. E ainda eram 4h50 pm.

Reparem na escuridão. E ainda eram 4h50 pm.

5th Ave. Já intransitável.

5th Ave. Já intransitável.

Fiz questão de entrar na caixa (descer, na verdade, a loja toda é no subsolo), mas estava tão apinhado de gente que mal deu para curtir os gadgets. Tinham me falado que a Apple Store seria um bom lugar para poder acessar a web de graça, mas não consegui nenhum macbookzinho livre. No máximo dei uma fuçada num iPod Touch e fomos para o Time Warner Center ali perto, que nada mais é do que um shopping center enjoado na Columbus Circle cheio de lojas super caras.

Lembram-se do vídeo da casa do primeiro dia? Que tal alguma coisa em escala um pouco maior?

Na verdade não entramos no shopping para ver esse festival de luzes, mas para comer. A Z. tinha nos recomendado uma sopa (mais uma) vendida dentro do Whole Foods desse shopping, e resolvemos conferir.

Imagine a seção de alimentos orgânicos/vegetarianos/naturebas/integrais/whatever do Pão de Açúcar que você conhece. Agora imagine um supermercado inteiro só com coisas desse tipo. Aumente um pouco mais o espaço físico da loja e inclua um balcão de comida japonesa (com sushimen fatiandos sashimis na hora), mais um balcão de comida por kilo, outro de sopas prontas e quentinhas, mais uma seção de roupas, cosméticos, tudo “ecologicamente correto”, além de muitos, muitos consumidores e você terá uma idéia do que é o Whole Foods.

Achei esse vídeo aqui que talvez explique melhor.

Pegou o espírito? O que era para ser uma prática inerente à alimentação do ser humano tornou-se mais um nicho de mercado. Aparentemente ninguém mais consegue comprar um rabanete sem correr o risco dele lhe transformar num monstro. Precisamos de um passo-a-passo de como comprar comida saudável. E você só estará completamente seguro das suas escolhas se comprar no Whole Foods. Ou não.

Pegamos sopa, pão e uma salada de frutas, pois tínhamos muito tempo ainda antes da Z. nos pegar.

Vai uma blueberry?

Vai uma blueberry?

Rockefeller Center
Depois da bela refeição, descemos a Sexta Avenida em direção ao Rockefeller Center, não sem antes passar pelo Radio City Music Hall:

Não vimos as Rockettes. Shame on us.

Não vimos as Rockettes. Shame on us.

No caminho, a Nintendo World:

Crianças em processo avançado de lavagem cerebral

Crianças em processo avançado de lavagem cerebral

E, finalmente, a árvore:

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Reparem ao fundo nessa última foto: trata-se da decoração de natal da Saks, “lojinha” badalada na Quinta Avenida. Como não poderia deixar de ser, tem uma graça nessa decoração aí também:

Tudo muito bonito, muito bacana, mas a essa altura eu já chorava sangue por carregar aquela mochila desde cedo. O peso já tinha aumentado milagrosamente para umas cinco toneladas e eu já nem sentia mais os meus pés e pernas de tanto andar. Ainda assim, tivemos pique de ir até a loja da Virgin na Broadway, que é ótima, muito legal, muito bacana, mas ficou sem foto, porque eu não conseguia fazer mais nada. Saímos direto da Virgin para o McDonald’s 24h mais perto e ficamos ali até as 2h00 (sem consumir nada – tinha esquecido, tomamos chocolate quente e capuccino) até que a Z. finalmente chegasse e nos levasse até sua casa em Long Island.

Manhattan em 3D no Google Earth

Está sem tempo para ir a New York e dar um passeio por Manhattan? Seus problemas acabaram. O Google Earth te dá uma mãozinha e você pode conferir praticamente a ilha inteira em três dimensões.
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Você não passa frio e pode ir de Uptown a Downtown em um clique.

E não é só isso. Até começar o planejamento dessa viagem, confesso que achava o Google Earth uma inutilidade bacana. Mas a street view acabou se tornando um ótimo recurso. Como se tratam de fotografias da rua, é possível saber que cara tem aquele restaurante imperdível que lhe indicaram, ou qual o caminho renderá mais fotos bonitas.

É satisfação garantida ou o seu dinheiro de volta.

Via lifehacker

Quinto dia – 22/12

Museu de História Natural
Viagem de férias é uma coisa estressante. Você está de férias, o que teoricamente significa descanso (algo que definitivamente não tive nos meus primeiros quatro dias em NY, já que não fiz outra coisa a não ser gastar a sola do sapato). Descansar, no meu caso, significa não ter hora para acordar, dormir o quanto quiser. No entanto, embora de férias, você se lembra de que passou o último ano economizando e planejando aqueles míseros 15 dias. Raciocinando um pouco, passar metade deles dormindo seria um desperdício inacreditável.

Saímos o mais cedo que a preguiça nos permitiu nesse dia e rumamos para o American Museum of Natural History. Antes da viagem, a única coisa que eu sabia dele é que o Ross do Friends trabalhava lá.

Há uma saída do metrô praticamente dentro do museu, o que o torna a visita muito cômoda. Principalmente porque o que você não anda fora é imeditamente compensado pelo que se caminha dentro dele. A essa altura do blog, chega a ser redundante dizer que o museu é gigante, mas não falto com a verdade. O saguão na entrada já dá uma idéia de quem são as principais atrações do lugar:

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Isso também já é indício de que não é possível visitar o Museu de História Natural com o mesmo espírito com que se vai ao MoMA ou o Met. O número de crianças presentes logo na entrada te lembra disso, caso você esqueça em algum momento. E embora possa parecer, isso não é uma reclamação. Muito pelo contrário. NY não é uma cidade muito amigável para as crianças. De cabeça, consigo lembrar de cinco atrações além do próprio Museu de História Natural: o zoológico do Central Park (de onde partem Marty, Alex, Gloria e Mellman para a Grand Central Station), a Toys R Us, a loja da M & M’s, a Nintendo World e, no natal, a árvore do Rockefeller Center. Comparado com a quantidade de atrações para os adultos, NY não é o melhor lugar para se visitar ainda criança. Disneyworld ainda ganha de longe.

É preciso, portanto, tirar o máximo de cada atração disponível. E você não é obrigado a ser criança para aproveitar a visita. O acervo é extremamente diversificado. Há, por exemplo, uma galeria dedicada aos animais africanos, outra aos animais aquáticos, uma reservada à pedras preciosas e meteoritos, uma área específica para mostrar os diferentes costumes dos povos asiáticos, africanos, americanos. Uma seção reservada aos répteis. Outra aos mamíferos. Tudo com placas explicativas bem detalhadas. É o tipo de lugar que as escolas norte-americanas devem usar como local para excursões e visitas monitoradas.

Máscara de teatro japonês Nô, da galeria de povos asiáticos

Máscara de teatro japonês Nô, da galeria de povos asiáticos

Hum... Não, melhor ficar no museu mesmo.

Hum... Não, melhor ficar no museu mesmo.

Mas nada supera as galerias dedicadas aos dinossauros. Foi a que mais me chamou a atenção. E na qual mais tempo passei tirando fotos.

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A desculpa esfarrapada para ficar tanto tempo nessa área era que meu sobrinho de 4 anos adora dinossauros. Aproveitei a loja dessa galeria – sim, há uma loja dentro do museu que só vende produtos relacionados a dinossauros – e comprei um T. Rex e uma caixa com várias miniaturas.

Aliás, isso é uma coisa que esqueci de mencionar quando falei dos outros museus: em todos eles, sem exceção, há uma ou mais lojas com todo tipo de souvenir relacionado ao acervo. Não chega a ser uma surpresa, mas vale a lembrança, já que tanto a entrada do Metropolitan como a do Museu de História Natural tem preço sugerido de US$ 20.00. Na prática, você paga quanto quiser. Em ambos fui generoso e paguei US$ 0.50.

Saímos mortos de cansaço do museu, mas ainda reservamos um pouco de energia para conhecer a tal Century 21. Li muito sobre essa loja como uma boa pedida para compra de roupas de inverno. De fato, o lugar tem preços melhores do que o resto de Manhattan, mas não há nada de muito interessante lá dentro se você não tem muito dinheiro para gastar ou se já conseguiu um bom casaco emprestado para os 15 dias de viagem.

Quarto dia – 21/12

Lady Liberty e, finalmente, o Met
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O PATH que sai de Journal Square tem dois terminais em Manhattan: um em Midtown, na 33rd Street, e outro Downtown, no World Trade Center. Ou no que um dia foi o WTC, pelo menos. Fomos para essa última estação nesse dia porque é a que fica mais perto do Staten Island Ferry, uma balsa que atravessa o Rio Hudson até Liberty State Park. O tempo não era dos melhores, mas naquela altura eu já tinha sacado que esperar um dia com céu aberto para tirar uma foto da estátua era ingenuidade demais.

Quem vai a NY querendo ver alguma coisa da área do WTC vai se decepcionar. Não há nada além de tapumes, máquinas e homens trabalhando. O que mais impressiona quando se chega perto é notar o tamanho da área isolada e imaginar que olhando para cima havia antes dois arranha-céus tapando o sol que hoje ilumina a rua.

Achei um vídeo do PATH chegando à estação. É o mais perto que é possível chegar ao Ground Zero:

Saímos da estação e chegamos ao terminal do Ferry.

Frio?

Frio?

Pela foto talvez não dê para perceber, mas são cinco camadas de roupa. Camiseta manga comprida, colete de lã, blusa de lã, blusa mega-boga de fleece, casaco. Fora cachecol, luva, gorro.

Como o Ferry é de graça, passa perto da estátua e visitá-la de perto não era exatamente o meu objetivo, fomos num pé e voltamos noutro.

Faltou zoom na hora. Dá pra saber que é ela?

Faltou zoom na hora. Dá pra saber que é ela?

Parece montagem, mas não é. O frio foi minha testemunha.

Parece montagem, mas não é. O frio foi minha testemunha.

Saímos do Ferry, almoçamos e fomos direto ao Metropolitan, finalmente. Eu já tinha ouvido falar muito do museu e estava muito curioso para saber se ele realmente é tudo aquilo que me disseram. Posso dizer que ele superou qualquer expectativa. Arte egípcia, grega, africana, medieval, americana, moderna, européia. Tem de tudo. Isso só no térreo, que foi o que tivemos pique de visitar no dia.

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Observando todo o acervo, principalmente do Egito, Grécia e Roma Antigas, a primeira sensação é a de se maravilhar e se perguntar como civilizações tão remotas foram capazes de conceber obras tão perfeitas. As esculturas particularmente me chamam muito a atenção pela exatidão do trabalho.

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A segunda pergunta, mais incômoda, é de como diabos tudo aquilo (acreditem, é muita coisa) foi parar ali, em Manhattan, nos Estados Unidos da América.

Não sei de vocês, mas eu só consigo pensar em pilhagem.

Terceiro dia – 20/12

MoMa e Times Square
Que tal acordar num dia de dezembro, pleno verão no Brasil, olhar pela janela e dar de cara com isso?

Sei lá quantas polegadas de neve, tava muito frio

Sei lá quantas polegadas de neve, tava muito frio

A cena se repetiu por mais alguns dias até eu descobrir que o chão do quintal não era grama, mas asfalto. Com tanta neve e previsão de mais frio para o dia, resolvemos rumar para mais um programa indoors. Decidimos pelo MoMa, e o Met ficou para outro dia novamente.

Eu coloco o Museu de Arte Moderna de NY entre os 3 colossos de Manhattan – os outros dois são o próprio Met e o Museu de História Natural. Todos são gigantescos, pelo menos para mim, que nunca havia passado tanto tempo andando dentro de museus na minha vida. Não sou nenhum museum freak, mas curto visitar uma exposição, ler as descrições, prestar atenção num detalhe de uma ou outra obra. Flanar pelo museu não é exatamente o meu modelo de apreciá-lo, mas depois de cinco horas lá dentro, perceber que você ainda não viu tudo dá desespero em qualquer um. A entrada não é barata (US$ 20,00), então é preciso pensar bastante e fazer contas para ver se vale a pena ver tudo num só dia ou se você vê o que der na paz e volta outro dia para conferir o resto.

O acervo permanente do MoMA é enorme. Tem Picasso, Pollock, Paul Klee, Matisse, Andy Warhol, Duchamp, Roy Lichtenstein, etc. Havia muita gente, mas as galerias são inúmeras e bem amplas (é muito fácil se perder sem um mapa do lugar à mão). Na ocasião havia uma exposição especial do Miró que cobria sua produção de 1927 a 1937. Muitas colagens, esculturas e muitas, muitas pinturas.

Não sabia que esse painel era tão grande

Não sabia que esse painel era tão grande

miro

Mortos de cansaço, saímos do MoMA e seguimos para o PATH passando por Times Square, que nada mais é do que uma faixa da Broadway entre as ruas 50 e 40. Os nomes das ruas com números, aliás, facilitam bastante a vida do turista. Sem isso seria muito mais difícil se locomover por Manhattan.

Times Square pré-reveillon. Ainda habitável.

Times Square pré-reveillon. Ainda habitável.

Não paramos em nenhuma loja nesse dia, mas para quem está acostumado à Lei Cidade Limpa de São Paulo, ver esses luminosos gigantescos pelas ruas é, no mínimo, diferente. Infelizmente o frio era muito grande, e o objetivo era sair da rua e entrar no trem aquecido o mais rápido possível. Deixamos a Broadway para outro dia.

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